sábado, 9 de janeiro de 2010

Dia 1

Olá!

No primeiro mês do ano, o primeiro post do blog, no primeiro dia do Acompanhamento do III Módulo do Projeto Igarité - Sexto ano com mediação tecnológica, em manaus, Amazonas.

Vamos lá.

O que é são os Projetos Igarités ?

A FRM - Fundação Roberto Marinho - em parceria com o governo do estado do Amazonas, implementa desde 2008 no norte do Brasil dois projetos educacionais diferentes: O Projeto Igarité, aceleração de estudos tendo em vista à redução da defasagem idade-série, e o Projeto Igarité - Sexto ano com mediação tecnológica que atua no ensino regular e que através de um moderno centro de mídias em manaus, integra escolas da rede estadual.

Como consultor da fundação, desembarquei sábado de madrugada em manaus para começar um período de duas semanas intensas que compõem o Acompanhamento. Manaus é uma ótima cidade, sempre que venho aqui fico com boas sensações, o clima quente me agrada, e as pessoas são muito respeitosas.

Depois de descançar do vôo, tive um longo dia de trabalho com a equipe da FRM. São aproximadamente 25 pessoas de várias partes do país, como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Acre, Paraná, Minas e lógicamente, Amazonas. Muitas delas eu ainda não conhecia e é sempre com muito carinho que elas me recebem. Muitas porém eu ja conhecia, e o prazer do reencontro é imenso. Sorrisos enormes, abraços calorosos.


A nossa reunião se iniciou às 2 da tarde, e só terminou as 8 da noite. Inicialmente, como a fundação propõe, fizemos uma grande e demorada atividade de motivação e socialização. Todos em suas cadeiras nos encontramos com um pedaço de papel com um bombom colado. No papel os dizeres de Paulo Freire:

"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. A educação necessita tanto de formação técnica e científica como de sonhos e utopias."

Palavras como essas nos fortalecem para que continuemos com as nossas expectativas, nossos sonhos. Levar acesso à uma educação de qualidade para cidadãos das partes mais inacessíveis de nosso país não poderia ser uma realidade se não fosse, antes, uma vontade. Uma não, várias.

Esta foi a reflexão inicial. Uma motivação.

Seguindo, a socialização. Aí entra o bombom.
A idéia é simples. O famoso ritual do amigo oculto. Uma espécie de bombom oculto.
As pessoas iam escolhendo para quem dar o seu bombom após fazer uma breve identificação de si e dizer o porquê da escolha. Imagine que muitas pessoas já passaram por momentos fortes juntas. Dessa atividade nasceu um clima ótimo de descontração, amizade, e muito amor pelo o que faz. A palavra é amor mesmo!

Após isso, que é uma praxe deste trabalho, houve uma segunda parte, nem sempre possível de ser feita, e que por isso mesmo foi muito importante. Assistimos à uma apresentação do jornalista e antropólogo Kássio Motta da empresa Bola de meia, bola de gude, especializada em relatoria e pesquisa. A presença de um especialista de fora da FRM em muito enriqueceu o debate. Ver site http://www.bmbg.com.br/


Como antropólogo, Kássio trouxe nos as possiveis contribuições que o método etnográfico pode dar à pesquisa educacional. A etnografia, "é uma descrição escrita da organização e das atividades sociais, dos recursos simbólicos e materiais, e de práticas interpretativas caracteristicas de um grupo particular de pessoas." (Duranti, 1997)
A partir dessa definição, Kássio defendeu as especificidades que nasceram com os métodos de análise etnográfica. Estes métodos compartilham da idéia de buscar compreender o objeto de estudo dentro do seu próprio pensamento, ou o que foucault chamou de episteme. Assim, repare, tiramos um imenso peso de nossas coisas, pesquisadores. É comum pensarmos em interpretações do meio educacional muito antes de desenha-lo. A busca por respostas pode muito bem ser também a fonte da cegueira de um pesquisador. A etnografia, buscando compreender a lógica do discurso do objeto de estudo, inverte a prórpia lógica de sujeito e objeto, pois o objeto não é mais visto como um depositário de explicações do sujeito, mas ao contrário, é a fonte do saber etnografico.
 
Essa reflexão trouxe um debate por vezes caótico. Afetou diretamente a forma de trabalho de muitas pessoas ali, inclusive aquelas que há muitos anos trabalham com pesquisa educacional. Pois, veja, o Acompanhamento é um período de ação em campo dos consultores junto às escolas, e que envolve várias atividades, passando por força física ao carregar armário, livro, tv, computador, amparo emocional, e resolução de um questionário padrão elaborado pela FRM.
 
Todo o debate foi então acerca de como se portar no campo, e de como registrar o que observou.
 
Sobre como se portar, Kássio usou as palavras: empatia, informalidade, sensibilidade, criatividade, auto reflfexão, relativismo. Nesse ponto, a discussão girou mais em torno da auto reflexão e do relativismo. Isso por que os consultores, na prática, aprenderam a se comportar segundo as primeiras palavras, porém, pela própria segurança com que a teoria e a metodologia defendida nos dá, muitas vezes deixamos de nos criticar, e com isso, não crescemos, não nos transformamos.
 
Como consequencia dessa postura de auto reflexão e relativismo, a discussão sobre como registrar esquentou o auditório. Muitos não entendiam o que Kássio estava propondo. A proposição era mesmo inovadora, ainda que eu mesmo já previa que fosse o melhor. Imagine, ele disse que não devemos nos ater aos questionários, pois eles impedem o clima de informalidade e sensibilidade. Pessoas que trabalham sobre o questionário há mais de 10 anos abriram os olhos. E entenderam, aceitaram mudar. Me encantei com a capacidade de auto critica. De fato, o questionario limita o entendimento da realidade se for usado como sabatina. A idéia não é essa. A idéia é criar sempre um clima propicio, e o questionário, pela sua autoridade, dificulta isso. Concordamos então em preencher o questionário assim que sairmos da escola, ao entrar na voadeira que corre os rios do Amazonas.
 
Nossa, quanta coisa. Acredite, isso foi somente um pequena parte do dia.
Voltarei semana que vem com notícias do interior do Amazonas. Mas para finalizar, fico com a frase de leleu, "só vai ter a alegria da aventura, quem se aventurar".
 
Tudo de bom!
 
Jan